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Assim termina minha história

  • Foto do escritor: Kaio Bruno
    Kaio Bruno
  • 10 de mai.
  • 4 min de leitura

Olhei a notificação no celular, abri um sorriso e li:

— Não se preocupe. Você não tem nada a ver com isso.

E foi assim que minha vida caminhou para uma tragédia.

Caro leitor, meu nome é José Felipe Barreto, e minha carne está apodrecida dentro de um caixão escuro, frio e sufocante. Os vermes se alimentam dela. A matéria finda, mas o espírito vive para contar esta história. Não sou o primeiro a ser vítima do amor, mas atrevo-me a permanecer neste plano para deixar registrados os últimos resquícios de minha existência.

Era uma tarde chuvosa quando Mariana Severo entrou naquela sala. Todos os olhos se voltaram para ela, a nova professora de Artes. Eu era um professor experiente, com mais de dez anos de docência. Sempre racional, escolhi a Matemática como formação. Fui casado uma vez, mas me divorciei. Sem filhos, morava sozinho em uma pequena casa na zona norte da cidade. Já havia trocado olhares com outras mulheres, mas nenhum foi tão arrebatador quanto aquele.

Minhas pupilas dilataram, meu corpo esquentou, minhas mãos ficaram inquietas. A novata despertou um sentimento adormecido, guardado por trás de uma persona fria e calculista. Boca seca, coração palpitante — todos os sintomas de uma paixão arrebatadora.

Aos poucos, fui me aproximando dela. Fizemos projetos pedagógicos interdisciplinares. Tornamo-nos colegas próximos. Debatíamos questões científicas e aspectos comuns da vida. Na presença dela, tudo ficava melhor.

Não demorou para passarmos a nos relacionar por meio de mensagens. Durante nossas conversas, nunca me atrevi a falar sobre relacionamentos amorosos, e Mariana também não tocava no assunto. Um dia, alguém veio deixá-la na escola: um homem mais velho, alto, de porte físico atlético.

Ao longe, observei um beijo. Fiquei corroído de ciúmes. Senti raiva e tristeza profunda. Mariana passou o dia perguntando se eu estava bem.

Amigo leitor, imagine-se apaixonado e descobrir que a pessoa que ama pertence a outro amor. A alma desfalece, os olhos entristecem e o semblante se torna apático. Tive inveja daquele homem. Eu queria a sensação do beijo daquela mulher, seu toque e sua presença todas as manhãs. Talvez você já tenha vivido essa experiência, e talvez compartilhemos a mesma dor.

Neste momento em que escrevo, contemplo um cortejo fúnebre. Há uma linda mulher vestida de preto, de pele morena e longos cabelos lisos. Ela chora copiosamente sobre o esquife, talvez seja a viúva do defunto. Se eu ainda estivesse vivo, passaria mais tempo nos cemitérios consolando viúvas e ajudando-as nesse momento tão difícil.

Alguns dias se passaram após o beijo. Mariana percebeu meu distanciamento, mas sempre encontrava um jeito de captar minha atenção. Voltei a falar com ela normalmente, agora consciente de seu relacionamento amoroso. Comecei a me questionar se era correto manter tamanha proximidade com uma mulher comprometida. Eu estava apaixonado e não queria me afastar.

Houve um dia em que Mariana chegou triste à escola. Permaneci em silêncio ao seu lado; não ousei perguntar o motivo daquela situação. No final do expediente, ela pediu para conversarmos em particular. Fomos a uma cafeteria na zona nobre da cidade. Lá, desabafou sobre sua vida, falou de suas frustrações pessoais e reclamou que seu casamento não ia bem. Eu escutava atentamente e, quando ela falou de sua infelicidade conjugal, fingi tristeza e preocupação. Ao final, despedimo-nos com um abraço. Estar em seus braços aumentou minha frequência cardíaca; senti o calor de seu corpo. O coração dela batia forte, assim como o meu.

A troca de mensagens se intensificou, e os colegas de trabalho começaram a perceber nossa proximidade. Daniele, professora de Português, perguntou se existia um relacionamento amoroso entre nós. Respondi que não. As palavras negavam, mas a linguagem corporal me desmentia.

Certo dia, quando saí do trabalho, tive a sensação de estar sendo observado. Olhei pelo retrovisor do carro e não constatei nada de estranho. A sensação me perseguiu até próximo de minha casa.

Convidei Mariana novamente para irmos à cafeteria. Parecíamos um jovem casal de namorados. Estávamos felizes por termos um ao outro. Passamos a tarde juntos e, ao final, nos beijamos. Foi nosso primeiro beijo. Sabíamos que era perigoso, de certa forma transgressor, e mesmo assim escolhemos continuar.

Houve muitos cafés depois daquele. Um dia, ao voltar para casa, contemplei um motoqueiro com o visor levantado, olhando diretamente em meus olhos. Seu olhar era aguçado, como se estivesse gravando cada detalhe do meu rosto. Revidei com a mesma intensidade. Não iria me intimidar, mas fiquei profundamente preocupado com aquela situação. Contei a Mariana o que estava acontecendo; ela teve medo e disse que seria melhor nos afastarmos. Apenas aceitei em silêncio, mas não pretendia desistir sem lutar.

Naquele dia, comprei uma arma e a deixei escondida em meu veículo.

Em uma noite, recebi uma mensagem de Mariana dizendo que havia brigado com o marido.

Respondi que era minha culpa. Ela escreveu:

— Não se preocupe. Você não tem nada a ver com isso.

Perguntou se eu poderia encontrá-la em frente à escola, pois havia saído de casa e precisava de ajuda. Eram 20h, e fui ao seu encontro. No caminho, pensei nos possíveis perigos. Depois da sensação de perseguição e do encontro com o motoqueiro, eu estava mais cauteloso.

Chegando ao local marcado, eu a vi. Parei o carro, coloquei a arma no bolso traseiro da calça e saí do veículo.

Ela estava com uma mala, possivelmente com algumas roupas. Ao me aproximar, um homem chegou em uma moto e disparou contra Mariana e contra mim. Ela caiu desfalecida, tiro na cabeça. Fui atingido na barriga. Corri para trás do carro e me escondi. O motoqueiro desceu e retirou o capacete. Eu o reconheci: era o marido dela, o mesmo homem que havia me observado antes.

Sabia que um tiro no estômago poderia ser fatal. Olhei para o corpo de Mariana no chão, saquei a arma e disse a mim mesmo que precisava de apenas um tiro certeiro.

Senti minhas pernas enfraquecerem enquanto o homem se aproximava do carro. Em um ato de extrema coragem, levantei-me e levei dois tiros no lado esquerdo do braço. Ergui minha arma e disparei duas vezes. Ao mesmo tempo, senti um tiro perfurar meu peito.

Tombei. Antes de cair, vi dois buracos de bala na cabeça daquele homem.

No final, havia três corpos diante da escola.

E assim termina minha história. Caro leitor, agora parto para o plano superior. Caso você esteja vivendo uma situação semelhante à que vivi, talvez exista a chance de nos encontrarmos em breve. Quem se deixa levar pela paixão pode acabar repousando em um caixão quando esse amor pertence a outra pessoa.

 

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© 2026 por Kaio B.P de Brito. Orgulhosamente criado com muito amor e dedicação!

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