— Thomas falando da Estação Espacial Internacional para a Terra. Alguém na escuta?
— Peter na escuta. O que você deseja relatar?
— O circuito da coleta de dados de radiação solar estava danificado. O reparo foi executado com sucesso.
— Ok, Thomas! Informação anexada ao relatório geral. Você tem algo mais a reportar?
— Peter, tenho uma pergunta não protocolar. Percebi que parte do planeta sofreu alteração visual. O que aconteceu?
Peter troca o canal de comunicação para um sinal não oficial.
— Thomas, aqui na Terra estamos vivendo a Terceira Guerra Mundial. O planeta está um caos. Duas grandes potências mundiais detonaram bombas nucleares. As alterações visuais vistas por você são reflexo desse conflito.
— Meu retorno à Terra é daqui a um mês. Ainda permanece o prazo determinado?
Silêncio. Um chiado estranho na comunicação. Trinta minutos se passaram, e ninguém retornou a mensagem.
— Aqui é Thomas. Alguém na escuta? — perguntou o astronauta, com certo grau de preocupação.
— Olá, tripulante da Estação Espacial Internacional. Fique calmo. Tivemos problemas na comunicação e, em breve, retornaremos sua mensagem assim que normalizarmos as atividades.
Trinta dias se passaram, e Thomas recebeu a mesma mensagem durante todo o período. Olhando para o planeta, observou maiores alterações. Sem respostas, sozinho e preso naquele lugar, enviou um sinal de S.O.S. em todas as direções do universo.
Noventa dias se passaram. Não havia mais nenhum sinal vindo da Terra. O planeta azul ficou sem cor; parecia morto. Com pouco suprimento e sem esperanças, Thomas observava a vastidão do espaço. Lembrou-se de quando se tornou astronauta, de suas graduações e de seus títulos acadêmicos, que de nada lhe podiam ajudar naquela situação. Pensou em sua mãe e em seus irmãos; uma lágrima flutuou na microgravidade. Sentiu o peso da solidão e pensou em tirar a própria vida. Após refletir alguns minutos, desistiu da ideia.
Ele resolveu agir. Modificou o sinal de rádio para enviar a mensagem de S.O.S. em todas as faixas de frequência permitidas pelo aparelho. Se houvesse vida inteligente, esse era um bom momento para se manifestar, pensou ele, um pouco cético.
Cem dias se passaram. No horizonte surgiu uma grande nave vinda da Terra. Com formato oval e cor cinza, em sua lateral direita estava escrito: Projeto Nova Gênesis. Thomas ficou admirado com as dimensões daquele objeto e relembrou ter ouvido falar de um projeto ultrassecreto de preservação da espécie humana e colonização de outros planetas. O rádio da estação espacial recebeu um sinal.
— Comandante John falando da Nova Gênesis. Alguém na escuta?
— Astronauta Thomas se apresentando, senhor.
— Recebemos seu pedido de socorro e viemos prontamente resgatá-lo. Vista seu traje espacial e aguarde na porta principal, pois dois astronautas irão conduzi-lo à nossa nave. Alguma dúvida?
— Obrigado, comandante. Vai ser muito bom retornar à Terra e sentir o chão firme.
— Desculpe informar, mas essa nave tem destino programado para o planeta HD 137010 b, também conhecido como Terra 2.0. A Terceira Guerra tornou insustentável a vida no planeta. Os níveis de radiação estão muito elevados. Estima-se que os recursos básicos para a vida durem, em média, 50 anos.
— Senhor, prefiro ficar na estação espacial. Podem prosseguir com a missão.
— Mas é suicídio permanecer aí. Seus recursos são finitos, e a morte é certa.
— Não se preocupe, John. Prefiro morrer contemplando meu planeta do que viver longe das pessoas que amo e do lugar onde nasci. Encerrando a transmissão.
A Nova Gênesis ligou um dos propulsores de fusão nuclear e se afastou lentamente da estação espacial.
Algumas horas após o encontro com a grande nave, Thomas lamentou não ter ido. O medo de morrer sozinho trouxe desespero à sua mente. Respirou fundo e pensou que há decisões que têm mais valor quando tomadas com o coração do que com a razão.
Foi até uma pequena estante perto de sua cama e pegou uma caixa de metal. Abriu-a e encontrou uma foto de uma família sorridente em um churrasco de domingo. Foi o último momento dele com seus familiares antes de partir para sua missão na estação espacial. Sua mente repousou, seu coração se aqueceu, e uma pequena lágrima se formava quando o rádio tocou novamente.
— Zurake balmat? — um zumbido metálico e dialeto não reconhecido.
Thomas olhou para o espaço, mas não havia sinal de nave ou sonda espacial.
— Há alguém? — novamente um chamado no rádio, mas agora as palavras eram claras.
— Positivo. Thomas falando. Com quem eu falo?
— Recebemos seu pedido de ajuda. Estamos aqui para socorrê-lo.
— Onde vocês estão? Não vejo nada no meu campo de visão.
— Estamos à frente do seu objeto espacial.
De repente, uma nave de formato triangular se materializou diante da estação espacial, com detalhes circulares em algumas regiões e aspecto tecno-orgânico.
— O que são vocês? — gritou, amedrontado.
— Não se preocupe. Você não corre perigo. Somos formas de vida inteligente de uma galáxia bem distante. Parte dos habitantes do seu planeta nos chamou de arquitetos; outra parte, de deuses; e alguns, de Anunnakis.
— Isso só pode ser brincadeira!
— Não estamos brincando. Somos aqueles que estudam os planetas mais favoráveis ao desenvolvimento de vida à base de carbono. Nossa ação é introduzir os elementos básicos para a vida e analisar como ocorre a evolução das espécies. Mantemos o mínimo contato com seres inteligentes para não interferir no desenvolvimento fisiológico e psicológico natural.
— Então por que vocês vieram me salvar?
— Sua espécie está se destruindo, e precisamos resgatar um exemplar adulto para experiências e levá-lo a um novo planeta similar a este. Lá estamos adotando uma nova abordagem: interação constante com os seres inteligentes locais.
— Eu não gostaria de ser instrumento de pesquisa. Só queria voltar para a Terra e, se possível, encontrar meus familiares e aproveitar o tempo que me resta com eles.
— Não iremos forçá-lo a nada. Seu desejo será realizado. Fique imóvel; iremos levá-lo de volta ao seu lar. Em seu braço direito estamos materializando um transmutador espacial. Nele há as coordenadas de uma localidade onde grande parte da sua espécie se refugiou da radiação.
— Como vocês têm essa informação?
— No início da evolução das espécies, essa era nossa base de pesquisa em seu planeta. Hoje você conhece esse local como Floresta Amazônica. Os primeiros seres inteligentes encontraram as instalações e criaram uma lenda chamada Ratanabá. Atualmente, os terráqueos utilizam o local como zona de sobrevivência.
— Irei para lá, mas antes quero voltar à minha casa.
— Se encontrar alguém que queira levar para Ratanabá, basta segurar a mão da pessoa e apertar o botão vermelho do transmutador.
— Entendi. Estou pronto para voltar à Terra. O que devo fazer?
— Fique parado. Iremos materializá-lo no planeta. Pense apenas em sua casa.
Thomas sentiu um formigamento por todo o corpo. Fechou os olhos e, de repente, viu-se na rua de um bairro de classe média alta. Assustado, levou um tempo tentando processar toda aquela informação. Pensou estar enlouquecendo, mas em seu braço havia o presente dos seres de outro planeta.
Aos poucos, reconheceu o lugar onde havia morado. O local estava deserto. Algumas casas estavam em ruínas. O ar estava pesado; sentiu dificuldade para respirar, os ouvidos zumbiam e havia um leve gosto azedo na boca, evidenciando níveis de radiação acima do aceitável.
Reconheceu primeiro a casa do vizinho. Procurou algum sinal de vida. Pela janela, encontrou apenas uma velha poltrona marcada pelo uso, possivelmente de uma pessoa que amava ficar o dia sentado esperando a vida passar.
Observou a casa ao lado: o jardim. Relembrou as tardes com sua mãe e seus irmãos. O portão estava aberto; a porta, trancada. Deu três batidas fortes. Esperou. Silêncio total. O vento soprava uma brisa quente de fim de tarde. Insistiu mais três vezes. Ninguém respondeu.
Da calçada, olhou novamente sua casa e chorou copiosamente, a ponto de soluçar. Imaginou que todos haviam morrido. Restou apertar o botão e seguir para Ratanabá.
Em segundos, estava no meio da cidade. Muitos se assustaram com sua chegada repentina. As autoridades o abordaram. Após ouvir sua história, concluíram tratar-se do astronauta da estação espacial. Sua narrativa sobre a nave Nova Gênesis foi confirmada, dando-lhe credibilidade para relatar o encontro alienígena. O transmutador foi recolhido para estudos.
Vinte anos se passaram. A vida no planeta tornou-se cada vez mais difícil. Pesquisadores trabalharam incansavelmente para realizar engenharia reversa no dispositivo alienígena, criando um grande portal espaço-temporal.
Nessa altura havia dois grupos trabalhando com duas teorias, uma com viagem dimensional e outra com viagem temporal. A primeira se mostrava mais promissora.
A viagem temporal pretendia evitar a Terceira Guerra Mundial. Porém, cálculos baseados na teoria do caos indicavam que o fator catalisador do conflito não era geopolítico, mas o fato de um desconhecido não ter realizado uma viagem para a Suíça. Parecia uma grande piada de mau gosto. Mas, mesmo sendo bastante questionável, o plano foi colocado em prática.
A viagem dimensional era a teoria mais defendida como a grande salvadora da espécie humana. No transmutador os alienígenas deixaram uma coordenada. Era a única referência que se tinha. Eles ligaram o portal dimensional e Thomas se prontificou a ser o primeiro a atravessar o dispositivo.
Aos 55 anos, sentiu novamente a sensação da primeira viagem. Do outro lado, encontrou uma grande sala com uma janela mostrando o horizonte de um planeta deslumbrante.
Uma voz ecoou em sua mente:
— Missão concluída com sucesso.
Thomas virou-se e viu um ser grande, sem olhos nem boca, de cor esverdeada, com vários braços flutuando no ar e comunicando-se por telepatia.
— Quem é você? — perguntou, assustado.
— Eu sou um daqueles que lhe deu o transmutador. O teste final da sua espécie era saber se vocês conseguiriam se unir para a preservação da vida. Nós fornecemos o dispositivo de uma viajem dimensional e deixamos a possibilidade de salvação com vocês. A espécie Homo sapiens, que ficou no planeta se uniu e agora vocês podem recomeçar.
— E que planeta é aquele?
— É o planeta que comentei há você 20 anos. Você poderia ter se salvado sozinho, mas a sua ação de retornar a Terra salvou uma parte de sua espécie. Estamos contentes, pois a sua espécie se mostrou bastante eficiente em momentos de crise e você nos surpreendeu indo contra todas as variáveis possíveis de sobrevivência. Ainda temos muito a estudar sobre a espécie humana.
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