O relógio marcava 23 horas de uma segunda-feira. Estou retornando para casa depois de ter visitado minha velha mãe. Naquela ocasião, eu estava me deslocando de transporte público. Na condução, havia somente eu e o motorista; a janela do meu assento estava aberta, permitindo-me sentir o vento frio e agradável que tocava os meus cabelos, fazendo-me relaxar a ponto de fechar os olhos e tirar pequenos cochilos. As ruas estavam desertas, apenas se ouvia o ronco do motor. Era uma sensação de solidão que contrastava com o ir e vir do dia.
O sinal de descida é dado, me levanto e sigo. Porta aberta, cumprimento o motorista e sou ignorado. O ônibus parte. Desço em uma grande praça, com bancos pintados de verde, uma grande quadra esportiva, uma igreja de paredes azuis, sugerindo esperança para todos os passantes. Na frente dela, há uma grande cruz com um deus morto, de braços abertos e olhar penitente. De repente, me vem um leve calafrio no pescoço e um frio na barriga. Escuto um sussurro: "O demônio dorme nas sombras." Aquele símbolo sacro me causava mais desespero do que alívio; a pouca luz na praça fazia o rosto daquele deus ser assustador. Por um momento, enquanto andava, fitei diretamente os olhos dele e, por cima, vi uma grande sombra. Acelerei os passos. O relógio marcava 23h30min.
Aproximadamente 15 minutos era o tempo de caminhada até minha residência. As ruas estavam fúnebres. Senti o cheiro de morte, olhei para o lado, era só um saco de lixo que estava aberto com comida estragada. Alívio! A pouca luz dos postes deixava as sombras bruxuleantes; demônios dançantes me atormentavam. A primeira parte do caminho era uma reta. Sigo amedrontado, mas com a cabeça levantada e um semblante sisudo. Após um terço do caminho, escuto uma mulher de voz doce e agradável pedindo-me para olhar para trás. Eu resisto. "Estou ficando maluco", pensei naquele momento. Mas a curiosidade é maior e, rapidamente, viro minha cabeça.
A morte me seguia! Minha boca ficou seca, senti uma leveza, pernas trêmulas, coração palpitante, suor frio. Quebrei o arreio! Eu queria engatar a quinta marcha, mas estava paralisado. Juntei forças de onde não tinha e, num impulso, corri. Gritei! Ninguém me ouviu. Nenhuma casa acendeu as luzes para mim. Não ousei olhar para trás novamente! Eu tive a visão de um ser vestido com uma longa roupa vermelha e um capuz da mesma cor; seu corpo estava totalmente coberto. Sua altura era de aproximadamente 2 metros. O relógio marcava 23h40min.
Cansado, sem fôlego, ofegante, o coração batia num ritmo acelerado, sangue fervendo, suor pelo corpo. Virei duas ruas após o percurso reto e rapidamente cheguei em casa. Procurei a chave como um cachorro faminto procura o osso. Não encontrei. Olhei nos meus bolsos e nada! Pensei que poderia ter perdido no caminho. Assustado, olhei para a esquina, não vi nada. Esperei alguns minutos. O relógio marcava 23h50. Sentei na calçada. Não havia mais demônios nem chaves. Olhei a vizinhança e percebi que estava diferente. Olhei minha casa e não estava do jeito que eu havia deixado ao sair para visitar minha mãe. Fiquei confuso! Eu estava sonhando? Não entendi nada! Coloquei as mãos na cabeça, fechei os olhos e pedi para acordar! O relógio marca 0h00min. É um novo dia.
De repente, um toque suave em meus ombros! Era uma linda mulher de cabelos crespos, com os olhos arredondados, castanhos-claros, pele escura e sorriso encantador. Eu choro ao vê-la, mas não tenho medo. Ela fala mansamente que há diversas moradas, mas a minha não era mais aquela. Suas mãos estavam estendidas, convidando-me a uma jornada diferente. Eu as seguro! Sinto paz! Eu estava perdido e agora estou a caminho do novo lar.
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