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O Despertar do mal

  • Foto do escritor: Kaio Bruno
    Kaio Bruno
  • 1 de mar.
  • 6 min de leitura

Atualizado: 8 de mar.



Há muito tempo, nos confins das terras mais antigas, existia um espírito ancestral cuja origem datava dos primórdios da história. Ele foi concebido quando Caim desferiu o golpe mortal contra seu irmão, Abel. Este mal entrou no mundo através do ódio e da inveja de Caim, e o mesmo o chamou de Abdon. Caim apresentava a marca de Abdon em sua mão esquerda, um sinal em forma de uma cruz com quatro círculos ao redor de cada lado da mesma. Possuído por este mal, Caim cometeu vários assassinatos. A Terra só descansou quando Caim veio a falecer. Após sua morte, a entidade sombria vagou nas regiões do Etéreo, alimentando-se do caos e da escuridão das pessoas.


Ao longo dos séculos, Abdon permaneceu alimentando-se da maldade das pessoas, apenas despertando nas noites de Halloween, quando o véu entre os mundos se tornava mais tênue. Na noite desse dia, sua presença era mais intensamente sentida, e sua influência estendia-se pelo mundo dos vivos.


Hoje, com a chegada do Halloween, também conhecido como Dia das Bruxas, Abdon prepara-se para erguer-se novamente, ansioso por influenciar o reino humano. Ele sempre procura pessoas depressivas e solitárias, com o intuito de manipular suas mentes e corromper suas almas, transformando seres pacíficos em portadores do caos.


Uma pequena escola, localizada no bairro Montese, estava toda enfeitada para a comemoração do Dia das Bruxas. Nas paredes dos corredores era possível observar diversos desenhos de seres oriundos desta data. Caveiras, bruxas e vampiros enfeitavam e davam o ar da festa. Pequenos morcegos foram amarrados em fios de nylon e pendurados em diversos espaços da escola. O pátio central tinha um grande painel escrito em letras garrafais: “DOCES OU TRAVESSURAS”. Os alunos trajavam suas fantasias e estavam ansiosos para o início da festa. O sino tocou e o grande evento ia começar. Contos de terror, desfile de fantasias e diversas competições iriam rechear o dia dos alunos naquele espaço. Enquanto a festa avançava, Abdon despertou de seu sono ancestral, espalhando sua influência sobre o mundo.


Um grupo de alunos brincava com um jogo de invocar espíritos e, dentre eles, estava Rodrigo, um aluno do 1º ano do ensino médio que andava depressivo e com desejos suicidas. Rodrigo estava passando por um momento difícil em sua casa. Sua mãe estava com um câncer terminal e seu pai saíra de casa, abandonando-os. Ele sentia-se só em meio a tantos dilemas da vida. O jogo dos espíritos continuava e muitos divertiam-se imitando possessões e fazendo sons estranhos para assustar uns aos outros. A brincadeira continuava sem nenhum problema até que eles resolveram chamar um espírito ancestral chamado Abdon.


A presença de Abdon pairou sobre todos naquele lugar, e uma escuridão suave começou a penetrar naquele ambiente. À medida que a escuridão se aprofundava, um por um, os participantes naquela sala começaram a agir de maneira estranha. Olhares vazios e sorrisos sinistros preenchiam seus rostos, enquanto agiam sob uma vontade desconhecida, um desejo de espalhar o caos.


Abdon esquadrinhou os corações de todos naquele ambiente e a alma mais apta para receber a sua presença era a de Rodrigo. Abdon decidiu apossar-se do garoto e espalhar o caos naquele lugar. De repente, o aluno possuído caiu em meio à sala e começou a convulsionar. Um grupo de três meninas saiu gritando pela escola, assustadas com o que haviam presenciado. Todos na escola partiram em direção à sala onde estava Rodrigo. Naquele instante, ele tinha parado de convulsionar, mas estava no chão como um morto. Muitos curiosos o rodeavam e dois professores providenciaram uma cadeira para fazê-lo sentar. Rodrigo sentou na cadeira, respirando ofegante, e internamente havia uma luta pela sua consciência. De um lado, Abdon lançando toda sorte de pensamentos negativos; do outro, a alma do estudante lutando contra a possessão.


Por um momento, Abdon tomou o controle do corpo de Rodrigo, fazendo-o levantar-se violentamente da cadeira. O espírito maligno deu um berro estridente de uma forma tão horripilante que todos que estavam naquela sala começaram a fugir daquele lugar. Rodrigo pegou uma das cadeiras e lançou contra um aluno que corria em direção à porta. O objeto acertou as pernas do garoto e ele caiu. Um grupo de alunos tentou conter Rodrigo e, com uma força sobre-humana, todos foram arremessados ao chão.


A sede de sangue de Abdon aumentava à medida que ele se sentia dono daquele corpo. A marca do demônio começava a aparecer na mão esquerda de Rodrigo. O demônio mirou em um dos meninos que estava caído no chão e desferiu um soco na barriga dele. Os poucos que tinham permanecido na sala gritaram de medo. Enquanto isso, um grupo de cinco professores chegou para tentar solucionar aquela situação. O professor de educação física disparou ao encontro de Rodrigo com o intuito de evitar que ele continuasse desferindo golpes contra o aluno que recebera um soco no estômago. Abdon simplesmente empurrou o professor e ele foi arremessado até o fundo da sala. O espírito maligno queria sangue, mas antes ele queria o caos. Os outros quatro professores ficaram parados como estátuas, sem saber o que fazer.


A batalha entre a luz e as trevas desenrolava-se no íntimo de Rodrigo. Ele tentava resistir à influência do espírito maligno. Havia uma luta no intuito de salvar a si mesmo e seus colegas das intenções maléficas de Abdon. Mas será que valia a pena lutar? Lutar para salvar a si mesmo e viver uma vida triste e cheia de problemas? Esse era o dilema da alma de Rodrigo e isso dava vantagem para o espírito possessor. Naquele momento, Abdon partiu para agredir o professor de matemática. O demônio o puxou pelo cabelo enquanto o mesmo tentava fugir ao ver seu colega ser arremessado. Abdon planejou arrancar os cabelos do professor e ver um pouco de sangue naquele local, mas, enquanto ele estava distraído, o professor de inglês arremessou uma cadeira em sua direção. O objeto acertou em cheio o garoto possuído, dando a possibilidade de o professor de matemática escapar.


Rodrigo caiu no chão. Abdon não podia deixar Rodrigo ser ferido, pois ele precisava daquele corpo para continuar seu caos naquele dia. O demônio sentiu um ódio profundo pelo professor de inglês. Rodrigo levantou-se e, com uma força sobrenatural, quebrou a cadeira, retirando uma barra de ferro da mesma. E saiu correndo ao encontro do professor de inglês. Tentando fugir daquela situação, o professor correu para o pátio central e todos os alunos que presenciavam aquele ocorrido estavam tremendamente assustados.


O demônio foi mais rápido que o professor, agarrando sua camisa e arremessando-o ao chão. Agora, o professor estava completamente indefeso e Abdon decidido a cometer seu primeiro derramamento de sangue naquele dia. O demônio levantou a barra para acertar a cabeça do professor e, de repente, uma voz feminina falou no alto-falante da rádio escolar. Uma voz doce e suave chamou o nome de Rodrigo.


Enquanto tudo isso acontecia, Clara ligara para a mãe de Rodrigo. Clara era a melhor amiga do rapaz e sabia de tudo o que ele passara nos últimos dias. Clara conhecia Ângela, a mãe de Rodrigo, e, mesmo sabendo de sua saúde debilitada, ela sabia que Ângela podia acalmar o coração de seu filho. A dificuldade naquele momento era como chegar perto de Rodrigo sem Abdon intervir. Foi nesse momento que ela teve a ideia de conectar seu telefone à caixa de som da escola e possibilitar o diálogo de Ângela com seu filho.


A voz serena de Ângela encheu toda a escola. Era uma voz arrastada e debilitada pela doença, mas tinha um tom melódico e doce. A voz iniciou um monólogo dizendo:


— Rodrigo, meu amor, eu não sei o que está acontecendo com você neste momento, mas saiba que eu te amo. A situação atual pode até estar difícil, mas lembre-se que nas noites mais escuras é que surgem as estrelas mais brilhantes. A vida é como o ouro, meu filho: quanto mais provada pelo fogo, mais valiosa se torna. Então seja forte e não deixe o mal te dominar.


O demônio ficou parado a poucos centímetros de acertar a barra de ferro no professor. Ele não entendera o que havia ocorrido; as palavras de Ângela deram o poder necessário para Rodrigo tomar o controle. Agora, internamente, a alma de Rodrigo se tornara forte, a marca de Abdon começara a sumir de sua mão esquerda. O demônio tentou inundar a mente do garoto com pensamentos negativos. Rodrigo viu que não estava só. Ele tinha a sua mãe, seus professores, sua amiga Clara e muitos colegas que gostavam dele. Rodrigo, em um tom de autoridade, ordenou que o demônio o deixasse e, mesmo contra sua vontade, Abdon não pôde resistir. O demônio praguejou e saiu do garoto. Todos que estavam observando viram uma aura vermelha deixar o rapaz. Rodrigo caiu no chão chorando e seus colegas, amigos e professores foram ao seu encontro.


O demônio saiu de Rodrigo, mas ele não foi destruído. Abdon voltou para o Etéreo e no próximo Halloween pode retornar.

 

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