Um corpo no chão. Fatalidade. Kleber foi puxado pela maldita gravidade. Pancada na cabeça, braço quebrado, fratura exposta, dor no peito, gemido de dor. As câmeras gravaram o exato momento do acidente.
Aquele jovem, filho único, de classe média alta, de cabelos loiros, pele branca, olhos esticados, nariz afilado e dentes tortos, descia as escadas em alta velocidade quando tropeçou em um pequeno brinquedo de borracha em formato de osso. O objeto, de cor verde desbotada, apresentava algumas marcas de dentes, sugerindo desgaste pelo uso prolongado. Pertencia a Luke, o cachorro da família, que havia desaparecido algumas horas antes do acidente.
A casa da família era muito grande: no primeiro andar havia duas suítes, um quarto de serviço e uma varanda cheia de plantas. O térreo era composto por dois banheiros, uma sala, uma sala de jantar, uma garagem e uma grande área de serviço. Conectando os dois andares, havia uma escada branca, revestida de porcelanato chinês, com corrimões dourados.
Os pais de Kleber, Josef e Marina, procuravam o cachorro. Kleber, em seu quarto, correu veloz ao ouvir um barulho estridente vindo de sua mãe, imaginando que ela tivesse se acidentado. Minutos antes, ele assistia à sua animação favorita, como fazia todos os finais de semana. Seu sonho era ser desenhista e criar suas próprias histórias.
Na área de serviço, Marina ficou em choque ao se deparar com o portão fechado e pequenas marcas de patas no chão em direção à rua. Naquele instante, cogitou inúmeras possibilidades trágicas para Luke. O cão era muito estimado, pois havia sido adotado quando ela passava por uma severa crise depressiva. Os remédios estavam perdendo a eficácia, mas a chegada daquele novo membro da família fez Marina sorrir novamente e voltar a fazer aquilo que lhe dava prazer: cozinhar.
Josef adorava assistir a programas policiais. Quando adolescente, sonhava em servir nas Forças Armadas, mas sua baixa estatura o fez repensar o plano e assumir um emprego como servidor público em um banco. Naquela manhã, estava sentado em sua poltrona, como de costume, com uma xícara de café em uma das mãos e a outra livre, pronta para afagar a cabeça de Luke. Alguns minutos se passaram e nada do cãozinho.
— Onde está Luke? — questionou Josef.
Procurou-o pela casa e gritou para Marina sobre o desaparecimento.
Mais cedo, Josef havia saído até a entrada da casa para pegar o jornal do dia. Mesmo com toda a tecnologia e a internet, insistia em receber a versão impressa. Enquanto recolhia o jornal, ficou observando a rua e avistou uma linda mulher de pele morena, cabelos lisos e um batom vermelho intenso. Suas curvas o hipnotizaram. O portão permaneceu aberto por um bom tempo.
Luke era um cachorro brincalhão e curioso. Sempre carinhoso, buscava pela manhã o afago de Josef. Mas, do alto da escada, percebeu algo novo: uma porta aberta, um convite para explorar o desconhecido. Desde pequeno vivera na casa e poucas vezes se aventurara com os donos pelo mundo externo. Desceu rapidamente a escada, deixando cair o brinquedo que carregava na boca. Passou pelo portão, ignorando o dono, e ganhou o mundo.
— Verifiquei as câmeras — disse o perito do Instituto Médico Legal a seu colega de trabalho.
Rapidamente registrou em sua ficha: morte por traumatismo cranioencefálico, resultante do impacto da cabeça contra os degraus.
De forma indecorosa, anotou em outro papel a seguinte observação:
Um homem casado, ao desejar outra mulher, pode cometer um crime culposo, mesmo tendo apenas a intenção de flertar.
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