Sinal vermelho
- Kaio Bruno
- 19 de abr.
- 2 min de leitura

O alarme toca. São 5h20 da manhã. O mesmo ritual diário. Levantou-se da cama, tomou banho, vestiu a roupa, tomou café forte sem açúcar, acompanhado de um pão francês recheado com alguma proteína animal. Preparou todo o seu material dentro da mochila e o colocou no banco traseiro do carro. Uma leve alegria surgiu, traduzida em um sorriso tímido em seu rosto, ao lembrar que era sexta-feira.
Antes de partir, fechou os olhos e verbalizou que o dia acabaria e que poderia descansar em mais um final de semana. Ele era um professor que, há mais de 10 anos, lecionava na mesma escola. Aprendeu o ofício vivenciando experiências que apenas a sala de aula é capaz de ensinar. Pensou algumas vezes em mudar de profissão, mas gostava muito do ambiente escolar e acreditava que a educação é uma ferramenta poderosa para a emancipação humana. Via em sua disciplina uma ferramenta teórica para desvendar os mistérios do mundo, muito embora os alunos não entendessem grande parte dos conceitos que ele tentava apresentar.
No trajeto para a escola, distraiu-se pensando na vida. Cantou algumas músicas até que se deu conta da turma em que iria entrar. Enquanto dirigia, pensou na melhor forma de começar o conteúdo:
— Talvez eu comece da forma tradicional — pensou.
Desistiu. Lembrou que essa geração não aguenta explicações maiores que três minutos. Mudou sua estratégia:
— Vou começar com a atividade; hoje será uma sala de aula invertida.
Desistiu novamente ao lembrar que, quando dissesse o capítulo do livro para a pesquisa, Joana perguntaria em qual página poderia encontrá-lo, sendo que havia um sumário para isso. Evitou o desgaste de ter que explicar o óbvio.
Nesse momento, relembrou uma conversa que tivera com um colega dias antes sobre as dificuldades do magistério. Ficou triste. Respirou profundamente. Olhou pela janela do carro e viu uma criança indo para a escola. Deu-se conta de que, enquanto houvesse alguém para educar, era seu papel pensar em formas de conseguir.
Dissociou-se do mundo por alguns segundos:
— Eureka! Vou começar pelo mais básico das abordagens: o senso comum! Todos têm uma bagagem de saberes.
Ele estava contente. Tinha encontrado o caminho para aquele dia. Até que voltou à realidade ao atravessar um sinal vermelho. Sentiu um misto de desespero e alívio. Por sorte, não houve acidentes.
Se algum dia um motorista for visto atravessando um sinal vermelho, pode ser apenas um professor pensativo indo para o trabalho.



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