A boca ficou seca, o olhar embaçado, as pernas trêmulas, suor frio. Um tiro, e a sensação de morte invadiu o âmago da alma. Gilberto sentiu a elevação da temperatura na altura do peito esquerdo. Por um segundo, olhou para sua camisa e viu o orifício da bala. Sem palavras, foi ao chão; ninguém o socorreu. A multidão corria descontroladamente, e o corpo ficou jogado na calçada. Mais uma vítima da violência urbana: a bala perdida que viaja cegamente, destruindo sonhos, causando luto e dor.
Era manhã de sábado quando Gilberto recebeu uma mensagem no celular. Um antigo amigo da universidade estava pela cidade e, naquela ocasião, lançara um convite para um reencontro. Gilberto era um homem de 40 anos, de pele morena, alto, calvo, com um olhar cansado e rugas na testa. Era uma pessoa de poucos amigos, bastante sério; amava os livros e odiava a ignorância das pessoas. Fora noivo quando mais moço, todavia viu o amor de sua vida ser levado por uma doença terminal. Jamais amou alguém novamente, mas nutria uma paixão pelos livros. Graduou-se em Letras-Português, fez mestrado e doutorado, defendendo a importância dos grandes escritores brasileiros e sua relevância para a formação da cultura local. Atualmente, lecionava como professor da Universidade Federal do Ceará.
Com o celular em mãos, Gilberto olhou para a foto daquele homem aparentemente estranho. Pensou em não responder à mensagem, até que um nome o fez relembrar os tempos antigos. Victor fora um dos melhores amigos que o destino levou para longe. Diferentemente de Gilberto, seu amigo sempre fora alegre e descontraído; levava a vida com leveza, amava escrever poemas e contemplar a natureza. Na época da graduação, tinha longos cabelos cacheados e dentes tortos, que sempre ficavam à mostra, pois estava sempre sorrindo. Uma dupla de opostos que aprenderam a se amar. O curso de música levou Victor para fora do país e, até aquele momento, Gilberto não tivera contato com ele.
Os dois marcaram de se encontrar em uma cafeteria italiana. O relógio marcava 15h quando Gilberto chegou ao estabelecimento. Para sua surpresa, seu amigo já o esperava. Victor, ao vê-lo, acenou com as mãos e deu um grande sorriso, semelhante àquele que mostrava no passado. Aproximou-se, deu um abraço forte e puxou rapidamente uma cadeira para que Gilberto se sentasse. Os dois falaram de suas experiências após a graduação. Victor contou sobre seu trabalho como produtor musical, suas viagens pelo mundo e sobre sua filha, que morava nos Estados Unidos. Rindo, expôs suas aventuras amorosas e confessou que nunca quis assumir um casamento. Gilberto abriu seu coração e falou do grande amor de sua vida, de como não amara mais ninguém após ela. Falou de seus vários artigos científicos e se gabou de ser o editor de uma das maiores revistas literárias do país.
Victor o questionou sobre o porquê de ele nunca ter publicado um livro e foi rebatido com um sorriso tímido, de quem ama estar no anonimato. A pesquisa era o que fazia Gilberto sentir contentamento. Ele era um ótimo crítico literário. Escreveu para colunas de artes de famosos jornais, comentando as mais variadas obras literárias, mas nunca buscou visibilidade para si. Havia um núcleo pequeno de pessoas que amavam suas críticas, mas nada que o tornasse uma figura pública de grande notoriedade. O tempo passou rapidamente, e o relógio marcava 17h. Victor tinha que voltar para o hotel, pois tinha outros compromissos, e Gilberto estava triste, pois teria que se despedir do amigo.
Na despedida, Victor tirou do bolso um pequeno livro e o deu a seu amigo. Gilberto sentiu vergonha por não ter nada em mãos para retribuir o presente. Mas logo a sensação de vergonha foi substituída pela de insatisfação. Ele ganhara uma obra de bolso de um escritor que odiava. Instintivamente, deu um sorriso forçado, expondo o desgosto pelo presente. Victor, muito simpático, ignorou qualquer reação estranha e deu um forte aperto de mão, desejando que, em breve, pudessem repetir aquele momento.
Agora sozinho, Gilberto retirou o livro do bolso. Era uma edição com duas obras, O Alquimista e O Diário de um Mago, ambas de Paulo Coelho. Gilberto lembrou-se da vez em que foi duramente criticado pelos fãs do autor ao falar daquelas obras. Na ocasião, criticou a simplicidade excessiva da escrita, o enredo com falhas estruturais e os personagens machistas. Por mais que tivesse ganhado aquele presente, decidiu desfazer-se dele na primeira loja de livros usados que encontrasse. A cafeteria ficava a algumas quadras de sua casa e, nesse percurso, havia algumas livrarias de novos e usados.
Com o livro em mãos, Gilberto parou em frente à livraria. Ele pensou em quanto poderia ganhar vendendo aquele livro. Naquele instante, sua consciência começou a atacar seu ego. Por mais que fossem duas obras literárias fracas, o que estava em suas mãos era um presente que representava uma boa memória. Ele ousou abrir a primeira página e, na contracapa, havia uma dedicatória de Victor. Ao ler, chorou. Teve vergonha de si mesmo. Conteve o ego e guardou o pequeno livro no bolso esquerdo da camisa. Seguiu seu caminho a pé rumo à sua casa.
Faltando duas quadras para sua residência, algo estranho acontecia na rua. Dois homens discutiam em voz alta. Os transeuntes ficaram assustados com a troca de insultos. Os ânimos se exaltavam, até que um deles puxou uma arma. Todos correram. Dois tiros foram ouvidos. Gilberto sentiu que foi atingido. Um calor no peito, uma dor; sua camisa furada na altura do peito esquerdo — a marca de um projétil. Um suor frio, a vista escureceu, e tudo se apagou de repente. Gilberto caiu na calçada fria.
Aos poucos, surgiu uma luz forte. Gilberto tinha certeza de que havia morrido. Ele não acreditava em vida pós-morte, mas aquela era uma ocasião para colocar à prova sua falta de fé. Com a vista embaçada, viu apenas uma sala branca; estava sozinho ali. Não havia sangue em sua roupa, embora o buraco do projétil ainda estivesse visível. Aos poucos, a consciência retornava. Em seu braço direito, uma bolsa de soro. Gilberto não entendia onde estava. Uma enfermeira entrou na sala.
— Onde eu estou? — questionou Gilberto.
A enfermeira respondeu gentilmente:
— Você está no hospital e foi vítima de uma bala perdida. O senhor desmaiou na rua e sofreu apenas uma leve queimadura no peito. O livro que estava em seu bolso evitou que a bala perfurasse sua pele. Agradeça a Paulo Coelho!
Gilberto gargalhou e disse:
— Nunca subestime um livro ruim. Se a história não te prende, pelo menos o papel segura a bala.
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