As paredes brancas e desbotadas choravam de melancolia e saudade. As marcas de unhas riscadas na parte inferior mostravam que havia vida naquele lugar. Da sala, era possível ouvir latidos e o barulho de patas, o som da alegria de quem sentia, de longe, o cheiro de quem estava por chegar. Nada disso existe mais. Restam apenas os quadros pendurados, trazendo à memória a doce nostalgia de um tempo que não há de voltar. A poltrona, afundada pelas longas horas de uso, guarda resquícios de pelos. O que antes era quente agora é frio.
Na cozinha, uma pequena tigela de aspecto velho e surrado, posta ao pé da mesa, traz a lembrança do mastigar de quem era feliz pelo simples fato de se alimentar. Após a refeição, um balançar contínuo de rabo e um sorriso que deixava à mostra os dentes tortos demonstravam uma gratidão verdadeira, sem precisar verbalizar palavra alguma.
No quarto, uma cama de luxo feita de blusas velhas, confortável o suficiente para que sua dona jamais reclamasse. Muitas vezes, insatisfeita, ela a levava na boca para um lugar que julgava ser melhor. Agora, só restam os fiapos e a certeza silenciosa de que nada mais mudará de lugar.
Há tantos espaços vazios que outrora respiravam vida. Vida essa que continua no pensamento de quem pôde compartilhar a existência ao lado de quem se foi. Uns dizem “até logo”, outros, “até breve”, e todos, um dia, dizem adeus. Hoje, a casa está vazia, mas as lembranças continuam vivas na mente e no coração de quem ficou.
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