Os seis globos estão ligados, e os nove números começam a dançar. Seis lindas moças ficam posicionadas para coletar os números do sorteio. Um apresentador baixo, calvo e com voz renitente anuncia que, em breve, sairá o nome do ganhador. Muitos estão conectados, assistindo ao evento na esperança de serem contemplados pela sorte. O prêmio consistia em uma viagem de uma semana para a Suíça, com tudo pago, além de uma quantia adicional de 100.000 euros.
O apresentador começa a anunciar os números do sorteio:
— Dois, nove, três, três, um e sete. E o grande vencedor é… Augusto! Em breve entraremos em contato para informar como você poderá resgatará o seu prêmio.
Em um bairro de classe média alta, repousava, em uma macia poltrona de couro, o grande campeão. Augusto era um homem de 32 anos, com barba por fazer, olhar baixo e cansado, cabelos longos, um pouco acima do peso e respiração pesada. Naquela noite, véspera de Ano-Novo, ele acompanhava o sorteio. O bilhete fora comprado por sua mãe e dado de presente a ele. Valéria acreditava que o filho era iluminado, pois sempre tivera muita sorte.
Desde criança, Augusto aplicava a lei do menor esforço. Na escola, costumava tirar apenas a média para aprovação. Nunca namorou, pois dizia ser muito cansativo manter relacionamentos. Amigos? Nunca criou vínculos com ninguém. Gostava apenas de ficar sentado, divagando e observando a vida passar. Arnaldo, seu pai, conseguira para ele um emprego em home office na empresa de um amigo. Aos 25 anos, ganhou dos pais uma casa toda mobiliada. Era um homem de poucos sonhos; um deles era conhecer um lugar tranquilo, mas odiava a ideia do esforço necessário para conquistá-los.
Augusto acompanhava o sorteio sem muitas expectativas, até perceber que os números anunciados coincidiam com os do bilhete que estava em sua mão. Seu nome foi anunciado; surpreso, esboçou um leve sorriso e, por um momento, sentiu-se alegre por ter ganhado. A euforia trouxe brilho aos seus olhos e fê-lo desejar conhecer um novo lugar. Era a primeira vez que demonstrava vontade de realizar algo. Pegou rapidamente o celular que repousava sobre uma mesa próxima à poltrona. Estava ansioso pelo telefonema que lhe indicaria os próximos passos para receber o prêmio.
O telefone toca, e Augusto atende. Uma voz aguda e aveludada começa a conversar com ele.
— Boa noite. O senhor se chama Augusto Braga Antunes Melo?
— Sou eu — responde Augusto, eufórico.
— Primeiramente, parabéns por ter ganhado o sorteio! Eu me chamo Carmen e sou a encarregada de lhe passar as informações do prêmio. Por favor, tenha em mãos papel e caneta, pois será necessário fazer algumas anotações.
Augusto busca rapidamente um caderno e uma caneta.
— Pronto, já estou com eles em mãos. Pode prosseguir com as informações.
— Para efetuarmos a transferência do dinheiro, precisarei que o senhor me informe o número de sua conta bancária. Após a transação, o banco terá até 24 horas para liberar o valor depositado. Sua viagem para a Suíça está marcada para o dia 7 de janeiro, com retorno agendado para o dia 14. Essa data é conveniente para o senhor? Caso não seja, podemos reagendar.
— Essa data está ótima. Agora me tire uma dúvida: o que é necessário para uma viagem como essa? Nunca fui para outro país e tenho dúvidas sobre o que fazer. Já adianto que possuo passaporte.
— Vou detalhar um pouco da sua viagem. Para o embarque, esteja no aeroporto com duas horas de antecedência, leve um documento com foto e seu passaporte para realizar o check-in. O voo parte às 7h do Aeroporto Internacional de Guarulhos e terá duração aproximada de 12 horas até o Aeroporto de Zurique. Ao chegar, um carro aguardará para levá-lo até Berna; esse trajeto leva cerca de duas horas. O senhor ficará hospedado no Hotel Savoy e, diariamente, um guia turístico o acompanhará para conhecer algumas atrações. Será uma semana muito marcante e agitada. Ah! Leve roupas de frio, pois nessa época do ano é inverno por lá. Qualquer dúvida, salve este número e entre em contato conosco.
À medida que escutava as orientações, Augusto ia mudando o semblante. O olhar cansado retornava lentamente ao seu rosto; uma sensação de fraqueza tomava sua alma. Ganhar o sorteio começava a parecer trabalhoso demais. Informou sua conta bancária à atendente e agradeceu pelas informações.
Ele decidiu não ir para a Suíça. Sentou-se confortavelmente em sua poltrona, apoiou os pés e ficou assistindo à TV. O relógio marcava 22 horas; sentiu tanto cansaço só de pensar na viagem que acabou dormindo.
O barulho dos fogos o acorda. Ele olha para o relógio de parede — 0h00, primeiro dia do ano. Sem disposição alguma, observa pela pequena fresta da janela da sala um grupo de pessoas comemorando a chegada de mais um ano. Na TV, um apresentador deseja um feliz Ano-Novo aos telespectadores e, sozinho naquela sala mal iluminada, ele resmunga:
— Tudo isso me cansa… todo ano é igual.
Desliga o aparelho e segue em direção ao quarto.
Uma luz esverdeada surge atrás de Augusto, que se vira lentamente para contemplar o fenômeno. Misteriosamente, algo emerge da região iluminada. Um homem de aproximadamente 75 anos, gordo, cheio de rugas, barba longa, careca e com olhar cansado dirige-se a ele:
— Venho do futuro. Tenho poucos minutos nesta linha temporal. O mundo está em colapso: as nações entraram na Terceira Grande Guerra, há destruição em massa e escassez de recursos; é o fim da raça humana. Pesquisadores criaram esta máquina temporal e, por meio de modelos matemáticos baseados na teoria do caos, descobriram que o início de tudo foi você não ter ido à Suíça. A preservação do planeta depende de você.
— Quem é você? — pergunta Augusto, confuso.
— Eu sou você. Fui escolhido para trazer essa mensagem, na tentativa de convencê-lo a realizar a viagem e mudar as linhas temporais. A explicação é complexa, e meu tempo está acabando. Então, por favor, aproveite seu prêmio e vá à Suíça! Nossos mundos dependem disso!
Augusto observa o senhor, e seu cansaço aumenta ainda mais. Salvar os mundos parece exigir esforço demais. Além disso, percebe que, se aquele homem é seu eu do futuro, então sobreviverá a tudo aquilo.
De forma preguiçosa, responde:
— Eu até salvaria os mundos… mas teria que me levantar, escolher uma roupa, sair de casa, fazer uma viagem… Melhor não… Meu sofá é muito confortável. Um dia tudo vai acabar e, enquanto isso não acontece, prefiro descansar…
…
Em um futuro distante, alguns pesquisadores entram urgentemente em uma casa de um bairro de classe média alta e encontram um senhor cansado descansando em seu sofá.
— Precisamos que o senhor faça uma viagem temporal… a salvação do mundo depende de você!
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