Deitado em sua cama, sentindo-se só, a tristeza e a apatia dominavam o âmago de seu ser. Levantou-se, olhou para a escrivaninha e viu um papel com alguns rabiscos e uma caneta velha. Puxou uma cadeira, alinhou o papel, pegou a caneta e pensou em escrever. Parou por um instante e relembrou sua solidão.
O ar frio do fim de tarde entrou pela janela, e a melancolia tomou conta do ambiente. Em sua boca, o gosto salgado das lágrimas que escorriam dos olhos anunciava uma última carta dedicada à depressão. Não sabia como iniciar; não queria colocar seu nome, nem sua história, muito menos seus sentimentos. Não havia a quem endereçar. Passou um longo tempo observando, da janela, o lusco-fusco no horizonte distante.
A escuridão invadiu o céu. Procurou Selene, mas não a encontrou. O branco do papel foi engolido pelo breu, e tudo permaneceu em silêncio. Um rio de amarguras percorreu os contornos de seu rosto.
Então, em meio à escuridão, surgiu um ponto brilhante, o fio de esperança que inspira poetas e escritores. Nesse momento, acendeu a luminária sobre a escrivaninha e começou a rabiscar. Os traços expressavam aquilo que o consciente não conseguia verbalizar. Lembrou-se de um soneto que ouvira outrora e, enquanto preenchia o papel, sua mente declamava:
“Desponta a estrela d’alva, a noite morre.
Pulam no mato alígeros cantores,
E doce a brisa no arraial das flores
Lânguidas queixas murmurando corre.”
Sua mão corria rápida pela folha. Imagens surgiam entre os rabiscos. Estava em êxtase; derramava o cálice da dor. Pela primeira vez rasgava o próprio coração e se esvaziava. Cansado, deu o trabalho por concluído. Respirou fundo e contemplou sua obra. Em uma extremidade do papel havia um crepúsculo matutino, com traços anunciando os primeiros raios de sol; na outra, a escuridão. Ao centro, a figura de um homem dividido entre a sombra e a luz.
Secou o rosto e reconheceu-se naquele papel. Novamente ouviu um doce sussurro declamar:
“Tudo é luz e esplendor; tudo se esfuma
Às carícias da aurora, ao céu risonho,
Ao flóreo bafo que o sertão perfuma!
Porém minh’alma triste e sem um sonho
Repete, olhando o prado, o rio, a espuma:
– Oh! mundo encantador, tu és medonho!”
Metamorfose. Transformação. Ele nunca mais parou. Por fora, as mesmas rugas; por dentro, um ser que sente, vive e se expressa.
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